quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cientistas 'desvendam' mistério de cemitério de baleias em deserto


Atualizado em  26 de fevereiro, 2014 - 14:22 (Brasília) 17:22 GMT
Análise de fósseis em Cerro Ballena/Foto: Instituto Smithsonian
Cientistas usaram várias técnicas digitais para registrar e analisar os fósseis
Pesquisadores chilenos e americanos estabeceram uma teoria para explicar a existência de um misterioso cemitério de baleias pré-históricas ao lado da rodovia Pan-Americana, no deserto do Atacama, no norte do Chile.
Os cientistas acreditam que os cetáceos ancestrais podem ter morrido ao consumir algas tóxicas, e que seus corpos foram parar no local que se encontram hoje - conhecido como Cerro Ballena ("Colina da Baleia") – por causa da configuração geográfica da região.
Os animais estão no local há 5 milhões de anos, e este acúmulo de fósseis seria o resultado de não apenas um, mas de quatro grandes encalhes.
Os dados recolhidos sugerem que todas as baleias ingeriram as algas. Os mamíferos mortos e os que estavam morrendo foram então arrastados para um estuário e, em seguida, para a areia onde, com o passar do tempo, foram enterrados.
Os estudiosos usaram modelos digitais em 3D dos esqueletos no sítio arqueológico e, depois, retiraram os ossos do local para mais análises em laboratório.
Os resultados da pesquisa foram divulgados pela publicação especializada Proceedings B of the Royal Society.

Criaturas bizarras

Já se sabia que os fósseis bem preservados de baleias são comuns nesta área do deserto chileno, e eles podiam ser vistos saindo das rochas.
Mas apenas quando começaram as obras para o alargamento da rodovia Pan-Americana que os pesquisadores tiveram a chance de estudar mais detalhadamente o local onde estavam os fósseis.
Eles tinham apenas duas semanas para completar o trabalho de campo antes do início das obras na rodovia. Por isso, a equipe de cientistas apressou os trabalhos para registrar o máximo possível de detalhes do local e dos fósseis.
Na análise feita no local onde os fósseis estavam foram identificados os restos de mais de 40 baleias.
Análise de fósseis em Cerro Ballena/Foto: Adam Metallo/ Instituto Smithsonian
Esqueletos estão em ótimo estado de conservação
Os cientistas também encontraram, entre estes fósseis de baleia, outros, de predadores marinhos importantes e também de herbívoros.
"Encontramos criaturas extintas como a baleia-morsa – que desenvolveram uma face parecida com a de uma morsa. E também havia estas ‘preguiças aquáticas’ bizarras", disse Nicholas Pyenson, um paleontologista do Museu Nacional Smithsonian de História Natural.
"Para mim é incrível que, em 240 metros (de uma obra de) abertura de estrada, conseguimos amostras de todas as estrelas do mundo dos fósseis de mamíferos marinhos na America do Sul, no final do período Mioceno. É uma acumulação incrivelmente densa de espécies", afirmou o cientista à BBC.

Quatro eventos

A equipe de cientistas notou que quase todos os esqueletos estavam completos e as posições em que foram encontrados tinham pontos em comum. Muitos estavam voltados para a mesma direção e de cabeça para baixo, por exemplo.
Tudo isto aponta para a possibilidade de as criaturas terem morrido devido à mesma catástrofe repentina. Mas as pesquisas mostram que as mortes não ocorreram apenas em um evento, foram quatro episódios separados durante um período de milhares de anos.
A melhor explicação que encontraram é que todos estes animais foram envenenados pelas toxinas que podem ser geradas pela proliferação de algas.
Essa proliferação é uma das causas prevalentes para grandes encalhes de mamíferos marinhos que vemos hoje.
"Todas as criaturas que encontramos, sejam baleias, focas ou peixes-agulha, estão no topo da cadeia alimentar marinha e aquilo deve ter deixado (estes animais) muito suscetíveis a proliferações de algas tóxicas", disse Pyenson.
Os pesquisadores também acreditam que a configuração do que era a costa em Cerro Ballena na época da morte dos animais contribuiu para que os corpos das baleias fossem levados para a areia, provavelmente além do alcance de animais marinhos necrófagos, que teriam consumido os cadáveres.
Análise de fósseis em Cerro Ballena/Foto: Instituto Smithsonian
Centenas de fósseis ainda precisam ser analisados em Cerro Ballena
Além disso, por esta ser uma região que agora é um deserto, poucos animais terrestres apareceram nos últimos séculos para roubar os ossos.

Sem a prova 'definitiva'

No entanto, por enquanto, os pesquisadores não podem afirmar com certeza que algas tóxicas foram responsáveis pelos encalhes.
Não há fragmentos de algas nos sedimentos, algo que poderia ser visto como a prova "definitiva".
Cerro Ballena é uma região considerada como um dos sítios de fósseis mais densos do mundo. Os cientistas calculam que podem existir centenas de espécies na área que ainda precisam ser descobertas e investigadas.
No momento, a Universidade do Chile, em Santiago, está trabalhando para construir uma estação de estudos na área.

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/02/140226_cemiterio_baleias_chile_fn.shtml

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Número de toninhas mortas no Espírito Santo sobe para 12

Vandré Fonseca 

DSC 0275Foto: Projeto Baleia Jubarte
Em fevereiro, mais cinco toninhas (Pontoporia blainvillei) foram encontradas mortas no litoral do Espírito Santo. No início do mês, ((o))eco há havia divulgado a preocupação de ambientalistas com o alto número de animais que estavam aparecendo mortos nas praias de Guriri e Pontal do Ipiranga, no norte do estado. Em janeiro, 7 carcaças já haviam sido enviadas para exames no Instituto Baleia Jubarte (IBJ), na Bahia. A toninha é um tipo de golfinho ou boto, que pode ser encontrado nas águas costeiras do Espírito Santo até a região Sul e a Argentina.
O Instituto enviou um ofício informando o problema no dia 22 de janeiro, mas depois disso animais mortos continuaram a aparecer nas praias. A situação foi relatada também ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ao Ibama e às autoridades estaduais. "O IEMA (Instituto Estadual do Meio Ambiente) disse que não tem legislação que lhe permita assumir esta fiscalização, mas se dispôs a apoiar uma ação conjunta em que disponibilizaria uma embarcação para as atividades de fiscalização. O IBAMA não nos respondeu até agora", informou o diretor de Pesquisas do Instituto Baleia Jubarte, o veterinário Milton Marcondes.
O IBJ fez a necropsia dos 12 animais e está elaborando um laudo sobre as mortes, mas já identificou sinais de que vários morreram ao se enroscar em redes de pesca. "Ou estão sendo capturados propositalmente ou não, mas está havendo a retirada de tecidos, das vísceras e da musculatura, aí sobram apenas ossos e pele", afirmou Marcondes. De acordo com o veterinário, a gordura de golfinhos encontrados mortos pode ser usada como isca para pesca de tubarões. Esse uso é preocupante, segundo Marcondes, porque pode incentivar a matança de golfinhos.
Se o pescador capturar por acidente o animal durante a pesca de outras espécies e ele ainda estiver vivo, o correto é devolvê-lo ao mar. Caso esteja morto, deve-se entregá-lo às autoridades, mas muitos preferem evitar a encrenca.
Relação do número e local dos animais mortos (fonte: Instituto Baleia Jubarte)
07/01 – 2 animais em Guriri – São Mateus
18/01 – 1 animal – Guriri – São Mateus
21/01 – 1 animal – Guriri – São Mateus
21/01 – 1 animal – Pontal do Ipiranga – Linhares
23/01 - 1 animal – Guriri – São Mateus
25/01 – 1 animal – Pontal do Ipiranga - Linhares
05/02 – 2 animais – Pontal do Ipiranga – Linhares
07/02 - 1 animal – Povoação – Linhares
08/02 – 1 animal – Povoação – Linhares
11/02 – 1 animal – Guriri – São Mateus

DSC 0279DSC 0281
DSC 0310DSC 0311
 Fonte: http://www.oeco.org.br/noticias/28026-numero-de-toninhas-mortas-no-espirito-santo-sobe-para-12

Calor intenso branqueia corais da Baía da Ilha Grande

 corais-branqueamento-CREDITOOBRIGATORIO-ESECTamoiosCorais branqueados. Foto: Adriana Gomes/ESEC Tamoios.
“Encontramos corais mortos ao longo de toda a baía. Outros ainda estão vivos e podem se recuperar”, explica a bióloga Adriana Gomes, analista ambiental da Estação Ecológica de Tamoios. Ela monitora os corais nas 29 ilhas que compõem a Unidade de Conservação e o mar do entorno, dentro da baía da Ilha Grande, entre os municípios de Angra dos Reis e Paraty.
A temperatura da água estava atípica: no final de janeiro, chegou a 34 ºC no mar, um recorde nunca registrado desde que, há dez anos, existem medições locais. Segundo pesquisadores do projeto Coral Vivo, foi este calor intenso de janeiro e fevereiro que causou o problema. O Coral Vivo se dedica a estudar as colônias de corais.
O branqueamento ocorre quando o coral expulsa as microalgas (chamadas zooxantelas) que vivem no seu interior e lhe dão cor. Isto ocorre por causa de estresses como acidez ou aquecimento da água, ou poluição. No caso da Costa Verde fluminense, o fenômeno está relacionado à elevação da temperatura.
1-fendaantes-especiessaudaveisCREDITOOBRIGATORIO-ESECTamoiosenda saudável tempos atrás. Foto: Adriana Gomes/ESEC Tamoios2-fendaagora-especiescombranqueamentoCREDITOOBRIGATORIO-ESECTamoiosA mesma, com o branqueamento. Foto: Adriana Gomes/ESEC Tamoios
O calor foi potencializado pela geografia da região. De acordo com o biólogo marinho Gustavo Duarte, coordenador executivo do Projeto Coral Vivo, houve um atraso na ressurgência de Cabo Frio, um fenômeno que empurra as águas geladas do fundo para a superfície em novembro. Apenas em fevereiro a temperatura do mar começou a se normalizar.
Segundo Duarte, “Quando os corais do litoral brasileiro sobrevivem a esse tipo de estresse crônico, em seis meses, recuperam a coloração, com o retorno das algas zooxantelas à colônia". Em outras partes do mundo, a taxa de mortalidade é maior.
Para estudar os corais, Duarte usa uma espécie de laboratório marinho dotado de tanques onde são simulados condições ambientais específicas para corais. Lá, estuda-se as reações das colônias a mudanças de temperatura e acidez da água.. O nome do equipamento é mesocosmo marinho e a unidade do Projeto Coral Vivo fica em Arraial d’Ajuda, na Bahia. O equipamento permite simular mudanças climáticas e testar o resultado de episódios como este que ocorreu em Paraty.
Fato isolado
Os pesquisadores do Projeto Coral Vivo também estão colhendo relatos de mergulhadores e pesquisadores da região da baía da Ilha Grande. Até o momento, parece que o fenômeno se restringiu ao local, sem atingir outras regiões do estado.

 
Clique nas imagens para ampliálas e ler as legendas
branqueamento-extenso-CREDITOOBRIGATORIO-ESECTamoioscolonia-de-coral-com-areas-com-branqueamento
branqueamento-em-coral-CREDITOOBRIGATORIO-ESECTamoiosespecies-de-coral-com-branqueamento-CREDITOOBRIGATORIO-ESECTamoios
 Fonte: http://www.oeco.org.br/noticias/28025-calor-intenso-branqueia-corais-da-baia-da-ilha-grande

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Portaria exclui geneticistas não médicos do aconselhamento genético



Uma nova portaria publicada no dia 12 de fevereiro determina que o Aconselhamento Genético (AG) seja realizado apenas por médicos geneticistas. As doenças genéticas atingem cerca de 3% da população, ou seja, aproximadamente 6 milhões de brasileiros e existem menos de 200 médicos geneticistas no Brasil ( 162 registrados como sócios da sociedade brasileira de genética médica) . Portanto, não é difícil prever que com essa limitação, a grande maioria das famílias com doenças genéticas não terá acesso ao AG. Pior ainda é que essa portaria exclui milhares de cientistas com doutorado em genética humana (biólogos, biomédicos ou outros profissionais de saúde), altamente especializados, que vem realizando AG há décadas e que não poderão mais atender as famílias de afetados. Essa resolução vai na contramão do que ocorre nos países do primeiro mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a profissão de Aconselhador Genético (Genetic counselor) , exercida por geneticistas não médicos , é reconhecida há vários anos. Sorte deles. Uma pesquisa recente, publicada na revista New England Journal of Medicine, mostrou que só 10% dos médicos nos Estados Unidos tinham algum conhecimento de genética. Recordando, o AG é um procedimento que envolve além do diagnóstico (quando há pacientes afetados na família), estimativas de riscos genéticos para parentes do afetado, orientação em relação a testes específicos a serem realizados, análise de exames genéticos ( que requer um treinamento longo pois são exames de alta complexidade) e transmissão de informações às famílias. É certamente do médico a responsabilidade de examinar o paciente e estabelecer o diagnóstico clínico, sempre que isso for possível. Mas em inúmeras situações, não há pacientes a serem examinados e o AG pode ser realizado por geneticistas não médicos. Por exemplo, um casal de primos que procura um servido de genética porque quer saber qual é o risco de que venham a ter uma criança afetada por uma doença genética decorrente da consanguinidade. Ou uma irmã de um afetado por distrofia muscular, já falecido, que quer saber qual é o risco de que venha a ter um descendente com a mesma doença. Sr. Ministro essa portaria precisa ser revista urgentemente. Caso contrário, a grande maioria das famílias brasileiras com doenças genéticas deixará de se beneficiar por um atendimento que tem contribuído para a prevenção de doenças genéticas há décadas.

Mayana Zatz
Professora titular de genética
Diretora-Centro de Pesquisas do Genoma Humano e células-tronco e
Instituto Nacional de células-tronco em doenças genéticas
Instituto de Biociências
Universidade de São Paulo

Fonte: http://www.ib.usp.br/en/presentation/8-noticias-do-instituto-de-biociencias/725-portaria-exclui-geneticistas.html

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Parasita de gato é achado em baleia no Ártico


Baleia Beluga | Crédito: AFP
Aquecimento global explicaria a transmissão, dizem cientistas
O parasita de gatos Toxoplasma gondii, que pode causar cegueira em seres humanos, foi achado em uma baleia beluga na costa oeste do Ártico.
A descoberta foi feita por cientistas da Universidade de British Columbia, no Canadá, que emitiram um alerta à comunidade local Inuit para não comer a carne desse tipo de mamífero.
Segundo os pesquisadores, trata-se de uma evidência de como o aquecimento global do Ártico vem possibilitando uma maior circulação de patógenos.
No passado, o clima da região agia como uma espécie de "obstáculo" aos agentes infecciosos.
"O gelo é uma barreira ecológica importante que influencia na forma como os patógenos podem ser transmitidos na natureza", afirmou Michael Grigg, parasitologista molecular que liderou a equipe responsável pela descoberta.
"O que nós temos descoberto com as mudanças ocorridas no Ártico é que novos agentes patógenos vêm surgindo, causando doenças na região que nunca haviam sido vistas anteriormente", acrescentou.
Grigg, que faz parte da Unidade de Pesquisas de Mamíferos Marinhos da Universidade de British Columbia, fez as declarações durante o encontro anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AASS, na sigla em inglês).
Toxoplasma gondii tem forte presença nas baixas latitudes e muitas pessoas contraem o parasita sem desenvolver problemas de saúde.
No entanto, o organismo pode apresentar riscos para mulheres grávidas e indíviduos com sistema imunológico fraco.

Aquecimento global

Os cientistas ainda não sabem, no entanto, como os parasitas foram parar na baleia beluga.
Eles suspeitam que os gatos trazidos para o Ártico como animais domésticos poderiam estar infectados com o organismo.
Na hipótese sustentada pelos pesquisadores, as fezes desses felinos teriam entrado em contato com a água dos rios que desembocam no oceano.
Com a elevação das temperaturas no Ártico, acreditam eles, a água permanece em estado líquido por mais tempo, facilitando, assim, o contato do parasita com outros animais.
"O estágio de transmissão do parasito é uma estrutura em forma de ovo", afirmou Grigg.
"A única forma de eliminá-lo é fervê-lo ou congelá-lo. Por isso, quanto mais tempo as temperaturas ficarem acima de zero grau Celsius, maior é o risco de exposição ao parasita. Com o aquecimento global, esse risco aumenta", acrescentou.
Em 2012, a equipe liderada por Grigg revelou que uma nova cepa de outro parasita, o Sarcocystis, foi responsável pela morte de mais de 400 focas cinzas no Atlântico Norte. O patógeno havia sido observado anteriormente apenas no Ártico.
Para Sue Moore, oceanógrafa da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, órgão do governo americano para assuntos ligados à meteorologia, oceanos, atmosfera e clima, o monitoramento dos mamíferos marinhos é a melhor forma de observar as mudanças no Ártico.
"Eles (mamíferos marinhos) são o que chamo de "sentinelas da mudança"", afirmou.
"Eles estão no topo da cadeia alimentar e dependem do ecossistema em que vivem. Deles, podemos ter, assim, uma visão 'de cima para baixo' do que está acontecendo", explicou ela.
"Os mamíferos marinhos refletem as mudanças que estão ocorrendo no ecossistema. Se um deles parar de comer determinado alimento e passar a comer outro, então é porque algo de importante aconteceu".

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/02/140216_parasita_gato_baleia_beluga_lgb.shtml

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uso de botos do Amazonas como isca para pesca pode causar extinção


Os golfinhos têm uma reprodução lenta. As fêmeas têm uma gestação de cerca de dez meses e, após o nascimento, podem cuidar dos filhotes por até quatro anos.

São Paulo - Levantamento  feito pela pesquisadora Sannie Muniz Brum com 35 comunidades de pescadores  em área de reserva de desenvolvimento sustentável, na região do Baixo Rio Purus, no Amazonas, constatou  que botos-vermelhos, conhecidos também como botos-cor-de-rosa, estão sendo mortos e usados como isca para a pesca do peixe piracatinga (Callophysus macropterus).
Sannie é pesquisadora  do Instituto Piagaçu (IPI) e colaboradora da Associação Amigos do Peixe-Boi (Ampa). O projeto teve apoio da Fundação Boticário de Proteção à Natureza. Sannie alerta que, no longo prazo, essa prática pode acabar levando à extinção do "golfinho da Amazônia". “As medidas têm que ser tomadas agora. Se não, é extinção”, disse Sannie hoje (13).
A coordenadora adjunta do Centro  Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Carla  Marques, disse que, em comitês internacionais, o governo brasileiro tem sido cobrado sobre a preservação dos botos da Amazônia.
O problema, disse, é que não há pessoal suficiente para exercer uma fiscalização contínua na região. O ICMBio fiscaliza  as áreas dentro das unidades de conservação e o Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) se encarrega de fiscalizar fora dessas unidades. “Dentro do instituto tem uma política de tentar evitar que ocorram essas práticas, mas o ICMBio não tem o poder de polícia”.
Carla Marques  informou que têm sido feitas campanhas pelo governo em conjunto com o Centro de Estudo e Pesquisa da Amazônia (Cepam). O órgão do Ministério do Meio Ambiente tem conhecimento  da utilização do golfinho como isca para pesca, o que é ilegal, e está articulando ações para coibir a prática em parceria com o Ibama e o próprio ministério. “A gente tem feito algumas ações de fiscalização em conjunto com o Ibama, mas as ações são pontuais. A Amazônia é um mundo inteiro. A gente não consegue coibir tudo”.
Carla admitiu que esse é um problema de difícil solução e que ocorre em outros países. Ela acredita que para resolver o problema, só com fiscalização. “Está todo mundo  pensando em tentar  mitigar esse problema, mas é de difícil solução pela falta de pessoal que se tem. Os dois órgãos têm pouco contingente para atender a uma região como a Amazônia”. Ela relatou, inclusive, que algumas ações ocorrem  em parceria com a Polícia Federal e as polícias locais. “Mas são pontuais. A gente não consegue estar presente o tempo todo. E a pesca continua”.
Além de uma fiscalização mais rigorosa e permanente, a pesquisadora Sannie Brum defendeu  a necessidade de se levar às comunidades que habitam em áreas protegidas informações para que saibam que é crime e ilegal usar botos-vermelhos como isca para a pesca.  “É preciso que haja uma conscientização. Eles [pescadores] sabem que é proibido, que não podem fazer”. É preciso que haja uma coibição efetiva para que decidam parar essa prática. “Educar e trazer informações são medidas para a conscientização dos pescadores”.
Segundo a pesquisadora, a mortalidade do golfinhos é elevada na região do Baixo Purus devido à atividade de pesca da piracatinga. Considerando 15 toneladas  pescadas somente na região, de acordo com relato dos próprios pescadores, a estimativa é que até 144 botos-cor-de-rosa sejam mortos por ano para virar isca. “É um absurdo”.
A situação se agrava considerando que os golfinhos têm uma reprodução lenta. As fêmeas têm uma gestação de cerca de dez meses e, após o nascimento, podem cuidar dos filhotes por até quatro anos. Com isso, a inserção de novos botos na natureza é demorada. Sannie diz que a morte de um grande número desses animais pode inviabilizar a manutenção da espécie.
Para a pesquisadora, a fiscalização  é importante, mas constitui o primeiro passo. “Ela tem que ser mais efetiva e aberta à discussão”. Ela reiterou a necessidade de uma grande campanha de educação ambiental nas comunidades, para que os moradores entendam a importância que o boto tem para o meio ambiente e para ele mesmo. Hoje, disse, o pescador vê o boto como um concorrente para suas atividades de pesca.  “A gente precisa mudar isso. E só muda com educação”.
Sannie Brum pretende começar uma nova pesquisa para descobrir o que pode ser usado como alternativa de  isca para a pesca da piracatinga. A coordenadora adjunta do CMA, Carla Marques, informou que esse é um tipo de peixe que se alimenta de carne morta ou em putrefação. Por isso, é rejeitado como alimento  pelos próprios pescadores.
Sannie Brum explicou que apesar disso, eles  vendem o produto para  mercados de São Paulo, do Paraná e do Nordeste e, inclusive, para outros países, como a Colômbia. Para isso,  usam o nome fantasia de “douradinha”. Como é vendido  sob a forma de filé, a piracatinga acaba sendo comprada pelos consumidores que o confundem com um peixe nobre, a dourada (Brachyplathystoma flavicans).

Fonte: http://www.d24am.com/amazonia/meio-ambiente/uso-de-botos-do-amazonas-como-isca-para-pesca-pode-causar-extincao/106201

Reserva Poço das Antas: desabafo de um ambientalista


((o))eco - 12/02/14

Antas-12Uma família de quatis morreu queimada. Três outros membros da família foram vistos ainda vivos nas proximidades. Foto: Antônio Bragança/AMLD.
Sem brigada própria de incêndio, a possibilidade de usar um avião e até sem telefone na sede para ligar para pedir ajuda – a linha foi cortada há 2 meses por falta de pagamento –, Gustavo Luna Peixoto, chefe da Reserva Biológica de Poço das Antas (Rebio), em Silva Jardim, mobilizou colegas, ex-funcionários e parceiros para formar uma brigada voluntária e combater o incêndio que começou na última sexta-feira (07).
O fogo veio do assentamento do Incra que fica no entorno da reserva: um proprietário fez uma queimada para limpar o terreno. O tempo seco e o vento espalharam as chamas e o resultado foi a destruição de 20% da reserva biológica Poços das Antas, que abriga o ameaçado Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia).
A equipe com 25 voluntários foi formada no sábado e levou 24 horas para deter o incêndio que devorou 1000 hectares da unidade. O reforço veio no domingo, quando 30 bombeiros vindos de Macaé, Casimiro de Abreu, Cabo Frio e Magé se uniram ao grupo, e a equipe passou a contar com um helicóptero do Corpo de Bombeiros para acabar com o fogo.
No Facebook, Luís Paulo Ferraz, secretário-executivo da Associação do Mico-Leão Dourado, que funciona dentro da Rebio, fez um balanço contundente sobre a queimada. Abaixo, leia o relato completo.
Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas
Antas 2
Antas 3Antas 5Antas 6
Hoje a equipe da Associação Mico-Leão-Dourado foi a campo documentar o "dia seguinte" do incêndio. E voltou arrasada com o que viu. Lamentamos ter que publicar estas fotos... Mas essas mortes precisam servir para algo.
Poço das Antas é a primeira Reserva Biológica do Brasil. Habitat do Mico-Leão-Dourado, da preguiça de coleira e de outras espécies importantes da fauna e flora da Mata Atlântica. Tem valor histórico e simbólico na luta conservacionista. É sede de um dos mais importantes trabalhos integrados para salvar uma espécie da extinção, o Mico-Leão-Dourado, candidato a Mascote Olímpico.
O Brasil é uma potência mundial em biodiversidade. Um país atualmente com destacada visibilidade, seja pelos grandes eventos esportivos, seja pela vitalidade de sua economia e suas contradições sociais. O Rio de Janeiro é a grande vitrine do Brasil. Um incêndio na sua reserva mais simbólica não pode ser justificado pelos burocratas apenas como mais uma fatalidade causada pelo calor ou por um agricultor desavisado.
Sábado, 08 de fevereiro. No segundo e decisivo dia do incêndio, Gustavo Luna Peixoto, o chefe da Reserva, mobilizou de forma competente para o combate um grupo de voluntários. Cerca de 25 homens, alguns funcionários de instituições parceiras, amigos, ex-servidores... A Reserva Biológica de Poço das Antas não tem brigada de incêndio nesta época do ano por falta de recursos. É evidente que normalmente costuma chover mais no verão. Mas não é o primeiro verão que a reserva tem esse mesmo problema.
O Instituto Chico Mendes, ICMBio, que administra as unidades de conservação federais está com dificuldades orçamentárias profundas. Na hora "H" não havia brigada de incêndio nem esquema de emergência. O telefone da Rebio estava cortado há dois meses e foi usado o da AMLD (Associação Mico Leão Dourado). O órgão estadual alegou dificuldades em outros parques. O chefe da Reserva fez muito mais do que poderia, diante de tanta precariedade. Os bombeiros apareceram 48horas depois. Não havia condições materiais nem treinamento para aqueles homens.
Alguns deles urinaram nos dormentes do trem para aproveitar a "água". Isso não é piada. Vi gente usando o próprio cantil para apagar o fogo. A luta era enorme para proteger florestas e as áreas em processo de restauração florestal. 50 mil mudas foram plantadas ali no último ano.
Não é possível que as imagens de corpos de capivaras, preguiças, quatis e tantas árvores queimadas sejam rapidamente esquecidas por todos nós, na velocidade da internet. Não é possível ver tantas autoridades circulando em veículos oficiais, desfilando de helicóptero, nossos colegas técnicos realizando tantas reuniões importantíssimas mundo afora, mas que não sejamos capazes de apagar com o mínimo de profissionalismo um incêndio previsível.
Vimos outro dia o ex-secretário de Meio Ambiente deixar seu cargo orgulhoso de um chamado desmatamento zero no Estado do Rio de Janeiro. Cansa escutar tantas frases espetaculares, números superdimensionados, diante da incapacidade de organização para o mínimo necessário.
Nós, que gostamos ou atuamos com os temas ambientais, temos que ter a consciência de que estamos perdendo muitas batalhas e refletir seriamente sobre isso. A sociedade brasileira, que demonstra tanta sensibilidade ao ver um animal maltratado, precisa entender também que o nosso modelo desenvolvimento a qualquer custo está fora de moda. E que proteger o que resta da nossa biodiversidade não é problema de ambientalista.
Luís Paulo Ferraz/Associação Mico Leão Dourado

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas
Antas 4
Antas 7Antas 8Antas 9
Antas 10
 
Antas 13
Antas 11Antas 14Antas 15
Antas 16
 Antas 17Uma pequena área não atingida forma uma ilha em meio a destruição. Foto: Luiz Paulo Ferraz/AMLD.
Fonte: http://www.oeco.org.br/noticias/28004-poco-das-antas-desabafo-de-um-ambientalista-cansado

Mudanças climáticas devem reduzir espécies de anfíbios da Mata Atlântica

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – O número de espécies e o tamanho das populações de anfíbios existentes da Mata Atlântica devem diminuir sensivelmente em razão das mudanças climáticas previstas para ocorrer no bioma nas próximas décadas.
As estimativas são de um estudo realizado por pesquisadores do Laboratório de Biogeografia da Conservação da Universidade Federal de Goiás (UFG), publicado na edição de fevereiro da revista Biodiversity and Conservation.
Alguns dos resultados da pesquisa foram apresentados durante o “Workshop Dimensions US-BIOTA São Paulo – A multidisciplinary framework for biodiversity prediction in the Brazilian Atlantic forest hotspot”, realizado na segunda-feira (10/02), na FAPESP, no âmbito do projeto de pesquisa “Dimensions US-BIOTA São Paulo: integrando disciplinas para a predição da biodiversidade da Floresta Atlântica no Brasil".
O projeto reúne cientistas do Brasil, dos Estados Unidos e da Austrália e é realizado no âmbito de um acordo de cooperação científica entre o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA-FAPESP) e o programa Dimensions of Biodiversity, da agência federal norte-americana de fomento à pesquisa National Science Foundation (NSF).
“As projeções que realizamos indicam que, em razão das mudanças nas condições climáticas que devem ocorrer na Mata Atlântica nas próximas décadas, a maioria das unidades de conservação do bioma perderá e poucas ganharão espécies de anfíbios”, disse Rafael Loyola, coordenador do Laboratório de Biogeografia da Conservação da UFG e um dos autores do estudo.
“Aparentemente, esse padrão também deverá prevalecer para outros organismos, como mamíferos, aves, mariposas e plantas”, apontou o pesquisador durante a palestra proferida no evento.
De acordo com Loyola, há 431 espécies de anfíbios na Mata Atlântica – bioma que detém 18% de todas as espécies desses animais na América do Sul. Por meio de seis diferentes modelos de distribuição, pelos quais se associa a presença de uma determinada espécie a um conjunto de variáveis ambientais, tais como a média anual de temperatura e de precipitação, os pesquisadores estimaram como essas 431 espécies de anfíbios estão distribuídas hoje pelas unidades de conservação na Mata Atlântica.
Com base em quatro simulações climáticas distintas para a América do Sul até 2050, utilizadas no 4º Relatório de Avaliação (AR4) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os pesquisadores estimaram em quais áreas de proteção da Mata Atlântica essas espécies de anfíbios estarão localizadas, levando em conta o tamanho, a forma e a posição geográfica das reservas florestais e as habilidades de dispersão dos animais em raios de 50, 100 e 200 quilômetros ao longo de 30 anos.
As projeções indicaram que os locais climaticamente adequados para a sobrevivência de anfíbios na Mata Atlântica deverão diminuir até 2050. Por essa razão, até 12% das espécies de anfíbios, localizados principalmente nas porções norte e sudoeste do bioma, deverão entrar em extinção e 88% terão retração da população.
“Isso quer dizer que esses 12% de espécies de anfíbios sofrerão uma contração na população de tal ordem que desaparecerão do bioma”, disse Loyola. “Não são espécies que sairão da Mata Atlântica em direção ao Cerrado ou à Caatinga. Elas realmente podem desaparecer”, ressaltou.
Mudanças na estrutura filogenética
Em um outro estudo, publicado na edição de janeiro da revista Ecography, os pesquisadores avaliaram se as mudanças climáticas também podem alterar a relação evolutiva entre espécies de anfíbios que ocorrem em unidades de conservação da Mata Atlântica, a fim de verificar se esses animais responderiam a essas alterações como clados (grupos que partilham um ancestral comum exclusivo) ou como espécies isoladas.
Os resultados dos modelos indicaram que grupos mais antigos (basais) de espécies de anfíbios, como as cecílias ou cobras-cegas, do grupo Gymnophiona, e o sapo-aru, da família Pipidae, poderão ser afetados positivamente pelas mudanças climáticas e deverão ampliar suas distribuições geográficas pela Mata Atlântica.
Por outro lado, grupos mais recentes (derivados) de anfíbios, como as pererecas de vidro, da família Centrolenidae, e outras espécies de pererecas, deverão ser severamente impactados e sua distribuição geográfica pelo bioma poderá ser reduzida em até 90%.
“Em algumas áreas de proteção da Mata Atlântica a diversidade filogenética dos anfíbios poderá aumentar em razão da extinção de espécies muito recentes, o que fará com que espécies basais aumentem sua distribuição pelo bioma”, detalhou Loyola.
“Nesse caso, a diversidade filogenética aumentará por uma razão errada: a perda de espécies muito recentes”, apontou. Uma das espécies de anfíbio que deverá beneficiar-se das mudanças climáticas, de acordo com Loyola, é a rã-touro americana (Lithobates catesbeianus). Introduzida na América do Sul desde 1930, a espécie é considerada invasora no Brasil.
“Boa parte das unidades de conservação da Mata Atlântica vai tornar-se climaticamente mais adequada para essa espécie de anfíbio”, disse Loyola. “Precisamos estudar como será possível evitar ou controlar a invasão dessa espécie, para evitar desequilíbrios ecológicos no bioma”, avaliou.
Contribuição das projeções
Segundo Loyola, as projeções de mudanças na distribuição geográfica de espécies animais podem auxiliar no planejamento e na implementação de medidas de conservação do bioma.
Ao estimar para onde determinadas espécies de animais devem migrar por causa das mudanças climáticas, é possível traçar corredores de dispersão, compostos por áreas conectadas capazes de servir de refúgio para esses animais, exemplificou.
Além disso, as projeções também auxiliam na identificação de áreas no bioma onde podem ser estabelecidas novas unidades de conservação, de modo a diminuir os efeitos das mudanças climáticas sobre o número e a composição das espécies.
“Os modelos permitem gerar soluções de conservação que consideram quais são os locais mais adequados para serem protegidos na Mata Atlântica levando em conta que o clima vai mudar e que as espécies respondem de uma maneira previsível a essas mudanças climáticas”, afirmou.
No estudo publicado na Biodiversity and Conservation os pesquisadores identificaram que as poucas reservas da Mata Atlântica que ganharão espécies nas próximas décadas estão situadas em montanhas, com capacidade de manter um clima adequado para os anfíbios.
Com base nessa constatação, eles sugerem que as novas unidades de conservação sejam estabelecidas em regiões de grande altitude do bioma e sejam criados corredores de dispersão para esses locais. Com isso, esperam atenuar os efeitos das mudanças climáticas sobre os anfíbios, mais suscetíveis às alterações no clima por sua dependência de microambientes, regimes hidrológicos e capacidade limitada de dispersão.
“É possível contornar perfeitamente esse quadro alarmante, caso as soluções que os cientistas vêm oferecendo sejam discutidas e implementadas por tomadores de decisão e legisladores; isso é uma ótima notícia para a comunidade em geral”, afirmou Loyola.
O artigo Climate change threatens protected areas of the Atlantic Forest(doi: 10.1007/s10531-013-0605-2), de Loyola e outros, pode ser lido na Biodiversity and Conservation emlink.springer.com/article/10.1007%2Fs10531-013-0605-2#.
O artigo Clade-specific consequences of climate change to amphibians in Atlantic Forest protected areas(DOI: 10.1111/j.1600-0587.2013.00396.x), também de Loyola e outros, pode ser lido na Ecography em onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1600-0587.2013.00396.x/abstract

Fonte: http://agencia.fapesp.br/18627